Boletim de sete órgãos federais prevê evento muito forte até dezembro, com chuva escassa no centro-norte e excesso de água no Sul. AMUSUH orienta os gestores municipais.
O El Niño de 2026 caminha para ser um dos mais fortes já registrados. O Painel El Niño 2026-2027 estima em mais de 95% a chance de um evento muito forte entre outubro e dezembro. A agência norte-americana NOAA não descarta o episódio mais intenso desde 1950, com o Pacífico Equatorial mais de 2,5 °C acima da média histórica.
A Associação Nacional dos Municípios Sedes de Usinas Hidroelétricas e Alagados (AMUSUH) resume aqui, para os gestores municipais, os pontos centrais do boletim nº 4 do painel, divulgado em setembro. O documento reúne dados de sete órgãos federais de meteorologia, recursos hídricos e defesa civil, listados ao final.
O que esperar até dezembro
A previsão para outubro, novembro e dezembro segue o padrão típico do El Niño. Deve chover acima da média no Sul, em parte do Sudeste e no leste do Nordeste. No Norte e em áreas do Nordeste e do Centro-Oeste, a chuva deve ficar abaixo da média. A temperatura tende a superar a média em quase todo o país, com exceção do extremo sul do Rio Grande do Sul.

Previsão de chuva (à esquerda) e de temperatura (à direita) para outubro a dezembro de 2026. Fonte: CPTEC/INPE, INMET e Funceme.
A estação chuvosa deve começar na porção central do país entre o fim de outubro e meados de novembro.
No centro-norte, pouca chuva e muito calor vão ampliar o déficit hídrico. A combinação ameaça lavouras de sequeiro, pastagens e o plantio da safra 2026/27. A soja semeada cedo pode falhar na germinação e exigir replantio. No semiárido, faltam forragem e água para os rebanhos.
No Sul, o solo úmido favorece o milho de primeira safra. O excesso de chuva, porém, eleva o risco de doenças fúngicas no trigo, como a giberela, atrasa a colheita e dificulta a semeadura da soja e do arroz irrigado.
Seca avança no Nordeste e no Norte
Em agosto, a seca grave cobria 16% do Nordeste, o quadro mais severo do país, segundo o Monitor de Secas. A seca já produz impactos de curto e de longo prazo na região, sinal de que deve durar mais. Em muitos locais, as reservas de água não se recuperaram antes da chegada do El Niño. O calor previsto acelera a evaporação, resseca o solo e aumenta o risco para o abastecimento.
No Norte, a seca piorou rapidamente em Roraima, no Acre e no Amazonas. Algumas áreas subiram até duas categorias de severidade em um mês. Municípios já relatam dificuldade para captar água e para navegar. As bacias dos rios Branco e Negro concentram a maior preocupação, sobretudo em Roraima.
O Índice Integrado de Seca do Cemaden confirma a piora. Em setembro, com dados parciais, 197 municípios estavam em seca severa, contra 153 em agosto. Os municípios em seca extrema passaram de 4 para 24. O avanço se concentra no Amazonas, na Bahia, no Amapá, em Alagoas e em Sergipe.

Municípios em seca severa e extrema em agosto e setembro de 2026 (setembro com dados parciais). Fonte: Cemaden.
Centro-Oeste melhora, Sudeste preocupa
O Centro-Oeste enfrenta uma seca mais branda que a de 2023. Naquele ano, Mato Grosso registrou seca grave e extrema. Agora, a maior parte do estado está livre do fenômeno.
No Sudeste, a seca é fraca ou moderada, como em 2023, mas cobre uma área maior: 84% da região. Com temperaturas acima da média previstas, o quadro pode piorar depressa entre a primavera e o verão se a estação chuvosa trouxer menos chuva que o esperado.
Sul tem risco de grandes inundações
No Sul, a ameaça é a cheia. Chuvas volumosas elevaram os rios e causaram inundações em setembro. No Rio Grande do Sul, o Taquari inundou áreas de Muçum, Encantado, Estrela e Lajeado, entre outros municípios. Em Santa Catarina, houve inundações em Otacílio Costa e Joaçaba. O Serviço Geológico do Brasil já emitiu mais de 170 boletins de alerta hidrológico para a região em 2026. O risco de cheias deve diminuir até dezembro.
Reservatórios operam na faixa normal
Todos os sistemas hídricos do Sistema Interligado Nacional (SIN) com faixas operativas definidas pela ANA operam na faixa normal. Em 23 de setembro, os reservatórios do SIN guardavam 65,9% do volume útil, o segundo maior valor para a data desde 2015. No Sul, o índice chegava a 81,4%.

Volume equivalente dos reservatórios do SIN em 23 de setembro, de 2022 a 2026. Fonte: SAR/ANA.
Há pontos de atenção. No Nordeste, 96 açudes monitorados pela ANA estão abaixo de 20% do volume, e 12 sistemas hídricos locais estão em estado hidrológico vermelho. O Sistema Cantareira, principal manancial da Grande São Paulo, tinha 41,3% do volume útil em 25 de setembro e opera em outubro na faixa de atenção.
Fogo ganha força na Amazônia
Julho e agosto tiveram menos focos que a média de 2020 a 2025: 44% e 37% abaixo, respectivamente, segundo o Painel do Fogo do Censipam. A atividade, no entanto, cresce mês a mês. Os eventos subiram 146% de julho para agosto e mais 66% em setembro. No Amapá, a temporada de fogo começou antes do habitual.
Para outubro a dezembro, a previsão de risco do Cemaden coloca 395 municípios em alerta alto e 533 em alerta. Juntos, eles somam cerca de 4,76 milhões de km². As áreas críticas ficam na Amazônia, no Centro-Oeste e no interior do país.
Agricultura familiar e comunidades
O Cemaden identificou 68 municípios com risco de perda nos plantios de feijão e milho sem irrigação feitos em agosto: 1 com risco muito alto, 38 com risco alto e 29 com risco moderado. O Amazonas concentra a maior parte.
A seca também avança sobre assentamentos rurais. Os que estão em seca extrema saltaram de 32 para 90 entre agosto e setembro, principalmente em Alagoas e Sergipe. Em áreas indígenas, 25 polos de saúde estão em seca severa: 18 no Amazonas e 7 em Roraima.
O que os municípios devem fazer
O boletim recomenda que estados e municípios:
- revisem e atualizem os planos de contingência para cenários de El Niño;
- usem previsões, avisos e alertas oficiais para orientar decisões;
- articulem defesa civil, recursos hídricos, meio ambiente, saúde, assistência social e segurança pública;
- mapeiem com antecedência os recursos disponíveis para resposta rápida, com prioridade para as populações mais vulneráveis.
A população também tem papel. Moradores podem se cadastrar para receber alertas da Defesa Civil enviando o CEP por SMS para 40199, pelo WhatsApp (61) 2034-4611 ou pelo Telegram @defesacivilbrbot. Celulares em áreas de risco recebem ainda as mensagens do Defesa Civil Alerta, sem necessidade de cadastro.

Canais de cadastro para receber os alertas da Defesa Civil. Fonte: Sedec.
Onde acompanhar previsões e alertas
- Avisos meteorológicos do INMET: https://avisos.inmet.gov.br/
- Previsão do tempo do INMET: https://previsao.inmet.gov.br/
- Alertas do Cemaden em tempo real: https://painelalertas.cemaden.gov.br/
- Previsão diária de risco geo-hidrológico (Cemaden): https://www.gov.br/cemaden/pt-br/assuntos/riscos-geo-hidrologicos/
- Monitoramento de seca nos territórios (Cemaden): https://alertasecas.cemaden.gov.br/
- Níveis dos rios e boletins hidrológicos (SACE/SGB): [INSERIR LINK DO SACE]
Planejamento antecipado reduz prejuízos
O El Niño deve se manter forte até o início de 2027. Os impactos variam de região para região, e cada município precisa ler o próprio quadro. Onde falta chuva, a prioridade é o abastecimento e a prevenção de incêndios. Onde sobra, é a resposta rápida às cheias.
A AMUSUH seguirá acompanhando os boletins do Painel El Niño e levará aos municípios sedes de usinas hidrelétricas e alagados as informações necessárias para o planejamento local. As instituições do painel publicam atualizações mensais.
Fonte
Painel El Niño 2026-2027, Boletim Mensal nº 04, setembro de 2026. Instituições participantes:
- Instituto Nacional de Meteorologia (INMET)
- Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE)
- Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA)
- Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden)
- Serviço Geológico do Brasil (SGB)
- Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil (Sedec)
- Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam)
Link para acessar o estudo:
https://www.gov.br/inpe/pt-br/assuntos/ultimas-noticias/painel-el-nino-2026-2027-quarto-boletim-sobre-o-monitoramento-do-fenomeno-no-brasil-e-publicado/painel-el-nino-4.pdf





