Reservatórios do Sudeste estão no nível mais baixo desde 2001

A persistência da seca em setembro agravou a situação dos reservatórios dos quatro sistemas regionais de hidrelétricas do país, fazendo com que o armazenamento médio no mês ficasse entre 40% e 50%. O sistema Sudeste-Centro-Oeste, que possui maior peso na geração total, ficou com média de 47,89% de armazenamento, nível dez pontos percentuais abaixo de agosto e o menor para setembro desde 2001, ano do apagão. Com isso, a energia no mercado livre ficou 52% mais cara em relação a agosto.

Por causa da queda no nível dos reservatórios, a energia no mercado livre foi comercializada por R$ 183 o megawatt-hora (MWh),

valor que poderia ser ainda maior, se o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) não tivesse tomado a decisão de acionar as termelétricas para atender ao nível-meta (índice mínimo de segurança das hidrelétricas para manter um nível seguro nos reservatórios).

O nível do sistema Sudeste-Centro-Oeste, por exemplo, vem caindo desde fevereiro – época de período chuvoso – quando chegou a 78,52%. O sistema Nordeste também está com nível abaixo da média dos últimos 12 anos para setembro. Neste ano, o operador registrou 42,63% de energia armazenada, em porcentagem que só foi menor em 2003: 27,78%. Os sistemas Sul e Norte tiveram média de 44,78% e 51,19%, respectivamente.

O preço para o consumidor livre no Nordeste ficou semelhante ao do Sudeste-Centro-Oeste (R$ 183,30), com o mesmo acontecendo nos sistemas Sul e Norte, segundo Mikio Kawai Junior, diretor-executivo da comercializadora e gestora Safira Energia.

“Os preços estão muito parecidos, pois o operador está repassando a energia produzida em uma região para a outra, compensando a diferença entre os níveis de armazenagem”, afirmou Kawai. Segundo ele, o aumento do preço entre agosto e setembro estava dentro do esperado. “A seca neste ano está mais severa do que nos períodos anteriores.” O pico do ano no mercado aconteceu em abril, quando o MWh chegou a R$ 250.

Ontem, o MWh da energia no mercado livre estava sendo vendido a R$ 175. Segundo o executivo, a tendência daqui para frente é que os preços comecem a cair. “O mercado olha sempre para frente. A cada semana que passa, aumentam as chances de que as chuvas voltem e com mais intensidade. Novembro vai chover mais do que em outubro, que deve chover mais do que em setembro.” A previsão é que a energia chegue ao fim do ano sendo comercializada a R$ 145 o MWh.

O preço da energia comercializada no mercado livre nos últimos dois meses poderia ser maior, se o ONS não estivesse recorrendo a termelétricas – principalmente às movidas a gás – para segurar o nível dos reservatórios das hidrelétricas, segundo o coordenador do Grupo de Estudos do Setor de Energia Elétrica (Gesel) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), professor Nivalde de Castro. Caso o nível dos reservatórios estivesse mais baixo, haveria pressão maior no preço da energia no mercado livre.

“Nós estamos importando o máximo possível de gás natural da Bolívia. Por conta de uma metodologia de meta para passar pelo período seco, o ONS tem procurado manter um nível seguro”, afirmou.

Os dados do primeiro semestre comprovam a afirmação de Castro. O custo do acionamento de termelétricas para garantir a segurança do sistema brasileiro totalizou R$ 91,1 milhões de janeiro a junho. O valor é muito superior aos R$ 6,1 milhões contabilizados em todo o ano passado, segundo a consultoria PSR.

Segundo a empresa, de janeiro a julho de 2012 foram gerados 2.129 gigawatts-hora (GWh) nas termelétricas para atendimento do nível-meta, contra apenas 63 GWh em todo o ano de 2011.

O aumento dessa geração de energia, porém, não será sentido fortemente no bolso do consumidor, porque a conta será compensada pela queda da produção térmica para correção de restrições elétricas no sistema. O encargo de serviços do sistema (ESS) inclui a produção termelétrica para as duas finalidades: segurança do sistema e restrições elétricas no sistema.

Na visão do professor, a situação está “aparentemente administrada”. Outro fator que levou ao aumento do gás importado foi o atraso na conclusão das usinas termelétricas movidas a carvão Pecem I e Pecem II, que estão sendo construídas pelo grupo EBX. “O fato de a queima do gás estar em um nível elevado mostra que o sistema passa por uma situação de estresse”, disse Castro.

Outro ponto que colaborou para a decisão de recorrer ao acionamento de térmicas foi o clima em setembro. O ONS identificou fatores climáticos que caracterizam o El Niño (fenômeno provocado pelo aquecimento das águas do oceano Pacífico e que alteram o clima mundial) e esperava uma ocorrência de chuvas maior na região Sul em setembro, o que não aconteceu.

A preocupação para o ano que vem em relação ao preço da energia e da segurança do sistema elétrico está no próximo período chuvoso, previsto para começar em novembro. Se o nível de chuva ficar abaixo da média histórica, o período de seca de 2013 pode fazer com que seja necessário aumentar o despacho de térmicas para atender a demanda. “Se as chuvas estiverem dentro da média, não vai haver problemas. Por enquanto não há sinal vermelho”, avalia Castro.

*Fonte: Valor Econômico – 04/10/2012