Renda aumenta com ações implementadas por usina

“Antes eu retirava 3,5 toneladas de peixe por ano e agora minha produção é de seis toneladas em um ciclo de oito meses, fora a pesca extrativa. Minha renda mais do que dobrou e hoje recebo cinco salários mínimos”, diz o piscicultor Estevão Martins de Souza, de Foz do Iguaçu, cadastrado no programa de criação de peixe no lago de Itaipu, em tanques-rede de seis metros cúbicos. Cada piscicultor tem cerca de cinco tanques-rede e o total no reservatório é de cerca de 550 dessas gaiolas submersas, que produzem espécies nativas, como pacu, piau e jundiá. A produção total em 2012 foi de 50 toneladas e, em 2013, deve chegar a 75 toneladas. A meta é produzir 150 toneladas de peixe em 2015.

Já o agricultor familiar Valmir Roque Anderle comemora o rendimento de 90 salários mínimos em 2012, com a produção de frutas, legumes e hortaliças orgânicos em uma propriedade de 2,5 hectares na área urbana de Pato Bragado e pretende alcançar cem salários em 2015. “Formei duas filhas só com essa área, uma em administração e outra em ciências contábeis, que trabalha comigo”, diz Anderle, integrante do programa de agricultura orgânica da binacional, que atinge 1,2 mil produtores.

A cada semana, Anderle entrega 250 a 300 pés de alface no mercado municipal e envia 200 kg de tomate para Curitiba. Também produz e vende cerca de mil quilos de uva por safra pelo sistema “colha e pague”, em que o visitante é que colhe a fruta, e é também associado da Cooperativa de Agroecologia e Indústria Familiar (Cooperfam), de Marechal Rondon, que obteve um contrato de R$ 780 mil para fornecimento de produtos orgânicos ao programa estadual de merenda escolar. A esposa Clarice transforma o que sobra em geleias, sucos, doces e molho de tomate.

Os dois programas fazem parte de um conjunto de ações, reunidas sob o título de Cultivando Água Boa, que Itaipu desenvolve, desde 2003, para diminuir o impacto ambiental causado pela construção da usina, três décadas atrás, e nas quais investe hoje US$ 6 milhões a US$ 8 milhões anuais. O projeto dos veículos elétricos derivou dessas ações. Tudo começou com a nova governança implantada pela diretoria da binacional, que tomou posse em 2003, em um esforço para dar uma nova face à estatal, superposta à de maior geradora de energia elétrica do mundo, responsável hoje por 19% da energia consumida no país e por 77% da consumida no Paraguai. Instalada na fronteira entre os dois países, no Rio Paraná, na bacia do Prata, a empresa incorporou desde então em sua gestão o conceito de responsabilidade socioambiental.

O Água Boa atinge 28 municípios paranaenses e um no Mato Grosso do Sul, que compõem a bacia hidrográfica do Paraná III, último trecho do rio em território brasileiro, onde está instalada a hidrelétrica e que vai do Salto de Sete Quedas, eliminado em 1982 com o represamento do rio Paraná para formar o reservatório da usina, até a foz do Rio Iguaçu. A gestão do programa é participativa e gerida por microbacias. A região, com 8 mil km2 e população de 1 milhão de habitantes, é constituída por cerca de 600 microbacias, das quais 140 recuperadas até agora. Outras 40 estão em recuperação e mais 50, projetadas.

As microbacias são formadas pelos numerosos rios da região, que vão desaguar no lago de Itaipu. Ao promover a restauração de extensas áreas verdes, um total de 104,4 mil hectares de áreas protegidas, com o plantio de mudas de árvores nativas para recomposição da flora regional, o programa resulta também em água em maior quantidade e de melhor qualidade na região, garantindo a segurança da produção de energia, com melhores índices de qualidade. Só a faixa arborizada de 100 metros de largura de cada lado do rio Paraná, alcança um total de 64 mil hectares. Essa faixa vai se conectar com o Parque Nacional do Iguaçu e formar um corredor de biodiversidade que deve chegar até o Parque Morro do Diabo, no Estado de São Paulo. Uma das consequências foi a volta de 55 espécies da flora e fauna nativas. Até as abelhas retornaram e a região voltou a ser produtora de mel.

Segundo Nelton Miguel Friedrich, diretor de coordenação da binacional, o investimento de Itaipu no programa é no mínimo duplicado com a soma de recursos dos participantes do programa. São mais de 190 convênios assinados com prefeituras, cooperativas, escolas, igrejas, associações, sindicatos e universidades. O planejamento é reavaliado e aperfeiçoado todo ano. Com isso, o orçamento de Itaipu para o programa tem chegado a taxas de 98% a 99% de aplicação efetiva. “Boa parte da questão não é dinheiro. Ele é imprescindível, mas será mais duradouro se as comunidades forem coautoras dos programas desde sua implantação”, diz Friedrich.

*Fonte: Valor Econômico – 20/02/2013.