Pecuária e frutas padecem com a seca no norte de MG

Mais de 100 municípios na região norte do Estado de Minas Gerais estão em estado de emergência por causa da seca. O governo do Estado e o Exército fazem o abastecimento emergencial de água com caminhões-pipa. Na zona rural, uma imagem que está se tornando mais frequente é a de bois e vacas mortos de sede e fome – e suas carcaças abandonadas no que um dia foi pasto.

O estrago da estiagem na economia local se estende pela produção de frutas e de leite e no deslocamento de gado para outras regiões. Muitos pequenos produtores que não têm um pasto alternativo estão vendendo seu gado, apesar dos preços baixos. Diversos municípios estão sem chuva desde o início do ano e decretaram emergência em fevereiro e março. As chuvas devem começar somente em outubro.

Hoje são 122 em emergência por causa da seca, concentrados no norte do Estado e parte deles no nordeste e noroeste. A perspectiva do governo era que neste ano o número ficasse em 114.

“Essa é uma das piores dos últimos 30 anos e que está atingindo Minas, Bahia e outros Estados do Nordeste”, diz Reinaldo Nunes, coordenador técnico da Empresa de Assistência Técnica e Extensão do Estado de Minas Gerais (Emater) em Montes Claros, maior cidade do norte de Minas. O rebanho de gado nessa área é de aproximadamente 2,5 milhões de cabeças e o problema maior é a alimentação, diz Nunes.

Sem pasto e sem água, um dos resultados imediatos na economia da região foi a queda abrupta na produção de leite. “A produção normal é de 600 mil litros por dia e por causa da seca houve uma redução de 40% a 50%. O prejuízo por mês é de R$ 5,4 milhões”, calcula Nunes. A maioria dos pequenos sitiantes e produtores com mais terras na região têm no leite uma renda adicional e diária.

A safra de grãos teve uma redução ainda maior. Segundo a Emater, o chamado veranico (período de 20 e poucos dias de estiagem em meio ao período chuvoso) durou do início de janeiro a até março em vários municípios. Foi num período crítico de plantio de arroz, feijão, milho, sorgo e outros grãos pelos produtores rurais mineiros. “A expectativa era de colher só nessa região norte 500 mil toneladas de grãos, mas perdemos 70% disso, um prejuízo de R$ 180 milhões”, diz o técnico da Emater.

Quem investe e vive da produção de frutas também está em dificuldades. Gurutuba e Lagoa Grande, dois grandes projetos irrigados no norte do Estado, cujas áreas somam 6,5 mil hectares e onde predomina a fruticultura, são os que mais sentem. “Os produtores estão sendo afetados porque dependem de uma barragem que está com o nível bastante comprometido”, afirma Pierre Santos Vilela, coordenador da assessoria técnica da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais (Faemg). A entidade informa representar quase 400 mil pequenos, médios e grandes produtores rurais.

Segundo Faemg e Emater, produtores, especialmente os menores, estão vendo parte de seu plantel de gado morrer. Há uma corrida para vender os animais mesmo abaixo do peso e mesmo com preços depreciados pela grande oferta. Sem ter como manter o gado, produtores acabam se descapitalizando porque o que recebem agora pelos animais não permitirá que eles reponham seu rebanho daqui a alguns meses, diz Reinaldo Nunes, técnico da Emater.

O governo do Estado prevê alocar um total de R$ 11 milhões em compras de cestas básicas, caminhões-pipas e outras ações. Além disso, o governo federal, por meio do Ministério da Integração Nacional, enviou mais R$ 10 milhões, que estão sendo usados para reforço das compras de alimentos, galões de água mineral e também para a distribuição de cisternas, disse o tenente coronel Fabiano Villas Bôas, secretário executivo da coordenadoria estadual da Defesa Civil. Em alguns municípios, como Catuti, não há mais água para consumo humano. E, paradoxalmente, em locais abastecidos por caminhões-pipa o desafio das famílias é armazenar essa água. O governo do Estado ainda conta com R$ 4 milhões este ano para a abertura de poços artesianos em locais públicos.

Villas Bôas diz que o que diferencia esta seca das anteriores é a duração. Enquanto geralmente os municípios do norte de Minas começam a decretar situação de emergência em abril e maio, neste ano isso aconteceu em fevereiro e março. Muitos dos decretos já foram prorrogados.

*Fonte: Valor Econômico – 24/08/2012