Número de médicos cresce, mas distribuição continua desigual

Pesquisa aponta que DF tem quatro vezes mais profissionais que Piauí

BRASÍLIA O número de médicos no Brasil vem crescendo nas últimas décadas, mas eles ainda estão mal distribuídos. Há uma concentração maior de profissionais nos grandes centros urbanos, nas regiões mais ricas e na rede privada de saúde. Segundo registros dos Conselhos Regionais de Medicina (CRMs), o número de médicos chegou a 388.015 em outubro de 2012, dois profissionais para cada 1.000 brasileiros. Essa razão era de 1,15 em 1980 e de 1,91 em 2010.

Os dados são da pesquisa “Demografia Médica no Brasil: cenários e indicadores de distribuição”, do Conselho Federal de Medicina (CFM) e do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp), divulgada ontem.

De 1980 a 2012, houve um aumento de 74% na razão de médicos por habitante. A pesquisa aponta alguns fatores para isso, como a abertura de muitos cursos de Medicina. Além disso, a cada ano, há um saldo de 6 mil a 8 mil médicos a mais no mercado de trabalho (número dos que entram, descontados aqueles que deixam de exercer a profissão).

A Organização Mundial de Saúde (OMS) estabelece como ideal a relação de pelo menos um médico para cada 1.000 habitantes. Nem todos os estados estão acima dessa marca. A pior situação se verifica no Maranhão, com 0,71, seguido de Pará, com 0,84, e Amapá, com 0,95. Segundo a pesquisa, esses três estados têm índices comparáveis a países africanos. O Distrito Federal é a unidade da federação com maior taxa de profissionais da área: 4,09 por 1.000 pessoas. O Rio está em segundo lugar, com 3,62, seguido de São Paulo, com 2,64. Também estão acima da média brasileira Rio Grande do Sul, Espírito Santo e Minas Gerais.

Por região, o Norte é o lugar que proporcionalmente tem menos médicos: 1,01 para cada 1.000 habitantes. No Nordeste, a proporção é de 1,23. No Centro-Oeste são 2,05 e no Sul, 2,09. O Sudeste é a região que concentra mais médicos: 2,67 para cada 1.000 habitantes.

– O que a gente vê, é que isso (aumento do número de médicos) não beneficiou de maneira homogênea todos os cidadãos brasileiros – diz Mario Scheffer, pesquisador do Departamento de Medicina Preventiva da Universidade de São Paulo (USP) e coordenador da pesquisa. – O aumento de médicos, por si só, não vai beneficiar os locais onde há carência de médicos.

A capital que proporcionalmente tem mais médicos é Vitória: 11,61 profissionais por 1.000 habitantes, quase o quíntuplo da taxa do Espírito Santo, que é de 2,17. O fenômeno se repete em todo o país: as capitais concentram mais médicos que o interior dos estados.

A divulgação coincide com a polêmica discussão em torno da facilitação da revalidação do diploma de médicos formados no exterior, que está sendo estudada pelo governo federal e é defendida pela Frente Nacional de Prefeitos e pela Associação Brasileira de Municípios. O objetivo é atrair médicos para regiões onde há carência de profissionais.

A proposta é repudiada pela Federação Nacional dos Médicos (Fenam) e, segundo a pesquisa do CFM e do Cremesp, não vai resolver o problema, pois tanto os médicos brasileiros quanto os estrangeiros em atuação no país seguem a tendência de se fixar nos grandes centros urbanos, longe do interior.

O estudo indica que a ideia de instalar cursos de Medicina onde há carência de médicos – defendida pelo Ministério da Educação – não atingirá seu objetivo. Segundo a pesquisa, a localização das faculdades de Medicina pouco influencia a decisão do futuro médico na hora de escolher onde vai trabalhar. De forma geral, diz o estudo, os formados optam pelo trabalho nas capitais e cidades mais ricas.

– Aí vem o governo, com suas tiradas mirabolantes, suas cartas tiradas da manga. Com efeitos cosméticos, tentam enganar, dizendo que com mais escolas e trazendo médicos de fora, o caso está resolvido. É um equívoco – criticou o presidente do CFM, Roberto d”Avila, acrescentando que é preciso estimular a carreira no sistema público e criar mecanismos que permitam sua fixação no interior.

Ao todo, 55% dos médicos estão vinculados à rede pública, mas, segundo a pesquisa, esse contingente é insuficiente para atender a demanda de 150 milhões de pessoas que dependem do SUS. Levando em conta apenas esses profissionais, há 1,11 médico para cada 1.000 habitantes que dependem do SUS, bem abaixo da média geral nacional. O Distrito Federal tem apenas 1,71 profissional por 1.000 habitantes quando desconsiderados os médicos da rede privada.

Quanto aos médicos formados no exterior, a pesquisa mostra que há 7.284 em atuação no Brasil, dos quais 65% são brasileiros que saíram do país para estudar. Em seguida, vêm os bolivianos, peruanos, colombianos, cubanos e argentinos. A média de idade é de 43 anos, contra os 46 anos da média nacional, e 80% não têm título em nenhuma especialidade. São Paulo é a cidade que concentra o maior número de profissionais formados fora do Brasil.

*Fonte: O Globo – 19/02/2013