Geradoras querem ajuda para pagar rombo de R$ 4 bi

Uma mudança na regulação do sistema elétrico brasileiro, incluída no pacote de renovação antecipada das concessões do setor, abriu um rombo de R$4 bilhões nas contas das geradoras de energia no início deste ano. Enquanto o governo ainda decide como fazer para salvar as distribuidoras em dificuldades por causa do contínuo uso de termoelétricas, as empresas de geração também se articulam para obter ajuda do Tesouro Nacional.

Todas as geradoras de energia do País participam de uma espécie de “condomínio” chamado de Mecanismo de Realocação de Energia (MRE), que compartilha e dilui os riscos de falta de água das usinas.

Assim, quando uma companhia tem dificuldade em gerar a quantidade de eletricidade que necessita para comercializar o que já foi contratado pelas distribuidoras (a chamada garantia física), ela recebe essa energia de outros empreendimentos do MRE. Com isso, a falta de geração em períodos de seca é bancada de forma proporcional pelas empresas do sistema.

Pelas regras anteriores, em todo mês de dezembro, as companhias de geração precisavam definir os montantes de energia que necessitariam, mês a mês, para o ano seguinte, o que no jargão do setor é chamado sazonalização. Mas, por causa da definição das cotas de distribuição da energia renovada pelo pacote do governo – que só ocorreu este ano – a sazonalização para 2013 foi jogada para fevereiro, o que criou um problema financeiro para as empresas em janeiro. Exagero. Gomo os reservatórios estavam em baixa, todas as companhias elevaram bastante os montantes de energia solicitados em janeiro. Com isso, a falta de eletricidade no MRE foi muito maior que o normal, forçando as empresas a comprarem energia no mercado à vista a preços muito mais altos.

Segundo estimativas das empresas, essa falta de energia no MRE seria de cerca de 10% por causa da seca, mas esse comportamento das empresas elevou a diferença entre a garantia física e o que de fato foi gerado para 26%. Q prejuízo estimado chega a R$ 4 bilhões. “Houve um comportamento de manada, pois a companhia que não elevasse sua previsão teria de arcar com um impacto negativo muito maior. Só um agente muito ingênuo não faria isso”, disse uma fonte.

Curiosamente, as únicas geradoras que não tiveram tanto prejuízo foram aquelas que não aceitaram a proposta do governo de renovação antecipada das concessões das usinas: Cesp, Cemig e Copei. Se, por um lado, elas também sofreram com o descompasso entre oferta e demanda no MRE, por outro, tinham energia descontratada de sobra para vender no mercado à vista.

Irresponsáveis. A avaliação da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) é de que os agentes do setor foram irresponsáveis ao elevar suas garantias físicas, mesmo sabendo da situação hidrológica desfavorável. Mas executivos das geradoras alegam que o próprio governo retirou o mecanismo de proteção do setor ao adiar a sazonalização deste ano.

Enquanto o governo tenta fechar um pacote de ajuda às distribuidoras – que estão arcando com despesa extra mensal de R$ 1,5 bilhão por causa do uso das termoelétricas as geradoras já montaram planilhas para percorrer a Esplanada em busca de ajuda. “Ainda há tempo, pois a liquidação desses valores só acontecerá em março. A bomba ainda não explodiu no caixa das empresas”, conclui a fonte.

*Fonte: O Estado de S. Paulo – 28/02/2013