Dívida da Eletropaulo excede teto permitido

A possibilidade de que a Eletropaulo ultrapasse pelo segundo trimestre consecutivo seus limites de endividamento (“covenants”) preocupa os analistas de investimentos. As ações da companhia derreteram na bolsa, enquanto crescem os temores dos investidores em relação à saúde financeira da distribuidora. Ontem, os papéis fecharam em baixa de 5,9%, a R$ 11,90. Neste ano, as ações já acumulam um tombo de 29%, depois de recuarem 47% em 2012.

A distribuidora de energia, que abastece a Grande São Paulo, já estourou seu teto de alavancagem no quarto trimestre de 2012 devido, em parte, às elevadas despesas com a geração de energia pelas termoelétricas.

Por contrato, a dívida líquida da companhia só pode corresponder a 3,5 vezes a geração de caixa medida pelo Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização). Mas, no quarto trimestre, essa relação já atingiu 4,9 vezes.

Em seu relatório, o analista do banco Santander, Márcio Prado, afirma ser muito provável que a distribuidora volte a ultrapassar seu limite de endividamento nestes primeiros três meses do ano. Se a Eletropaulo quebrar seus covenants por dois trimestres consecutivos, os credores podem exigir a quitação dos empréstimos.

O Ebitda da companhia despencou de R$ 2,848 bilhões em 2011 para R$ 656 milhões em 2012, enquanto a sua dívida líquida aumentou de R$ 2,3 bilhões para R$ 3,1 bilhões no período. Em julho do ano passado, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) promoveu um corte acima do esperado nas tarifas da Eletropaulo, o que já havia debilitado sua geração de caixa. A despesas com geração térmica, de R$ 782 milhões, abalaram ainda mais estrutura de capital da empresa.

Em teleconferência realizada ontem com os analistas, Britaldo Soares, presidente do grupo AES no Brasil, o controlador da Eletropaulo, afirmou que o governo estuda neste momento uma solução para rombo provocado pelo despacho das usinas térmicas no fluxo de caixa das distribuidoras. Essa solução, segundo o executivo, pode conter medidas que “preveniriam” uma quebra dos “covenants” da empresa.

Em outubro do ano passado, a Eletropaulo estabeleceu uma nova metodologia para cálculo dos limites de endividamento, que voltou a considerar os ativos e passivos regulatórios. Nesta conta estão incluídos, por exemplo, os gastos com o funcionamento das térmicas, que são contabilizados nos Encargos dos Serviços do Sistema (ESS).

Esse encargo é cobrado todos os meses das distribuidoras. As empresas irão repassá-los às tarifas dos consumidores, mas isso só será feito no aniversário do reajuste tarifário de cada distribuidora. Até lá, as empresas precisam arcar com a despesas.

É esperado que o governo anuncie em breve um pacote para socorrer as distribuidoras. As térmicas foram ligadas a partir de novembro devido à queda nos reservatórios das hidrelétricas e devem permanecer ligadas nos próximos meses, o que agravará o problema. “As negociações estão em curso. Existe um grande empenho da Abradee (associação das distribuidoras de energia)”, afirmou Soares. Segundo ele, os entendimentos com a Aneel e o Ministério de Minas e Energia avançaram.

Mas a ajuda para as distribuidoras poderá não vir na forma de um empréstimo subsidiado do BNDES, alternativa que foi considerada pelo setor. “Não necessariamente estamos falando de um financiamento “, disse Soares.

Segundo ele, a solução que está sendo negociada com o governo contempla tanto aspectos “conjunturais” quanto “estruturais”. Isso porque o Brasil passará a depender cada vez mais da geração de energia termoelétrica daqui para frente, já que as hidrelétricas estão sendo construídas sem grandes reservatórios de água.

A possível concessão de empréstimos do BNDES também não será a melhor solução para algumas empresas. Representantes da Abradee já haviam declarado que muitas empresas já estão muito alavancadas e que, portanto, não poderiam assumir mais dívidas.

*Fonte: Valor Econômico – 28/02/2013