Concessionária inicia gestão de Guarulhos com prazo apertado

Na mesma semana do anúncio do pacote de concessões em infraestrutura pelo governo, o aeroporto de Guarulhos (região metropolitana de São Paulo) começou a ser oficialmente administrado de forma compartilhada entre a estatal Infraero e as empresas vencedoras do leilão – a brasileira Invepar e a sul-africana Acsa. Num apertado prazo de dois anos (até a Copa do Mundo de 2014), as três companhias, que formam a Concessionária Aeroporto Internacional de Guarulhos, devem concluir projetos que somam R$ 2 bilhões em investimentos. O principal deles, a construção de um terceiro terminal de passageiros, deve começar a ser construído ainda neste mês.

Segundo o presidente da concessionária, Antonio Miguel Marques, serão usados três turnos de trabalho, em sete dias por semana,

para que o empreendimento seja concluído dentro do prazo fixado pelo governo. De hoje até a Copa, são 22 meses para tirar do papel e finalizar o empreendimento de 194 mil m², o dobro do tamanho dos outros dois terminais somados. A capacidade é para 12 milhões de passageiros ao ano (hoje, Guarulhos movimenta 30 milhões). A concessionária estima que em dez dias a construção deve ser iniciada, dependendo da autorização da Anac.

A concessão dura 20 anos. Invepar (cerca de 90%) e Acsa (10%), formam uma sociedade que têm 51% da concessionária. O restante é da Infraero, com 49%. Além do terminal, outras cinco grandes obras devem ser feitas até 2014, pelo contrato. Para Marques, entre as mais importantes está o novo pátio para estacionamento de aeronaves, que terá a capacidade elevada de 48 vagas (para aviões) para 111 – conclusão estimada em um ano. Também haverá um novo edifício-garagem, para 2,6 mil carros, e a criação de outras 5 mil vagas no estacionamento não coberto. Por fim, serão feitas duas reformas nas pistas do aeroporto. “São obras requisitadas pelo governo, mas em todas estamos fazendo com um porte maior do que o exigido”.

A sociedade prevê um investimento total de R$ 4,5 bilhões, a serem aplicados até 2018. Segundo Marques, o financiamento ainda está em negociação com o BNDES e bancos privados, e deve corresponder a um número entre 70% e 80% do total. Para as obras com prazo de dois anos, a sociedade já reuniu o capital (“equity”) necessário.

A gestão compartilhada entre Infraero e as empresas vai durar seis meses. Nos três primeiros (agosto a novembro), a Infraero opera o aeroporto, enquanto as empresas privadas observam e adquirem conhecimento. Nos três meses seguintes (novembro a fevereiro), o papel se inverte e as empresas assumem, com a estatal em segundo plano. Essa operação envolve a administração das aeronaves em solo (em ar, a Aeronáutica comanda), serviços de abastecimento e de catering (alimentação) e ainda a administração do comércio, entre outros. Para isso, a concessionária terá 1200 funcionários – hoje, a Infraero emprega no local 1400 trabalhadores. “Vamos aproveitar a maior parte”, disse Marques. Quem não for contratado, informa, deve ser remanejado pela estatal a outros locais.

Somente em novembro a concessionária começa a receber receitas. Guarulhos, que teve faturamento de R$ 1 bilhão, em 2011, sofrerá um “substancial crescimento”, nas palavras de Marques – que calcula 30% de expansão de receitas ao ano. “Esse crescimento não será feito por tarifas aeroportuárias, que são reguladas [o governo limitou os reajustes nos contratos de concessão], mas sim com o comércio no aeroporto”, diz. Segundo o executivo, 70% do faturamento do aeroporto deve ser oriundo de atividades comerciais, e apenas 30% de tarifas aeroportuárias. Hoje, são 50% de cada. Até o fim da concessão, em 2032, o aeroporto deve atingir 70 milhões de passageiros ao ano. “Até lá, seremos o principal hub brasileiro”, diz, descartando forte concorrência privada em Brasília e Viracopos.

A operação será comandada por seis profissionais da Acsa, empresa que administra os terminais de Joanesburgo, na África do Sul. O diretor de operações do aeroporto, Girish Gopal, disse ao Valor que considera as metas em Guarulhos um desafio “enorme”, mas que acredita no esforço dos profissionais em cumpri-las.

Gopal diz que já identificou possibilidades de melhorias imediatas. “Com operações básicas, podemos reduzir o tempo de check-in para 90 segundos”, exemplificou. Ele ressalta que a experiência da Acsa na Copa da África do Sul, em 2010, dará mais tranquilidade à operação brasileira durante o Mundial. “Cerca de 30% das pessoas que viajam regularmente não voam na Copa, principalmente por causa dos preços mais altos [no período]”, diz Gopal, que adianta que o planejamento para o aeroporto durante o Mundial deve começar no ano que vem.

*Fonte: Valor Econômico – 16/08/2012