Biocombustíveis para aviação

Mais uma promissora oportunidade se apresenta para o Brasil: a produção de biocombustíveis para uso em aviões a jato. O esforço mundial para reduzir as emissões de gases de efeito estufa (GEE) é também compartilhado pela indústria aeronáutica (responsável por cerca de 2% do total emitido no mundo), que pretende implantar metas ambiciosas para minimizar o impacto.

Parte da redução de emissões pode ser conseguida com o desenvolvimento de aviões e turbinas mais eficientes, mas o grande potencial de queda está no combustível utilizado. Nesse sentido, o uso de biocombustíveis pela indústria aeronáutica, diferentemente da automotiva, tem que obedecer a duas exigências: ser biocombustível líquido e drop-in, ou seja, adequado para uso direto sem modificações nas turbinas.

Os biocombustíveis são vistos como a melhor maneira de mitigar os GEE, pois podem, dependendo da matéria-prima e do processo utilizados na produção, emitir menos GEE do que o querosene de origem fóssil. Com esse objetivo, as companhias de aviação, assim como os fabricantes de aviões de todo o mundo, estão há alguns anos fazendo voos de demonstração usando vários bioquerosenes (como são chamados os biocombustíveis que substituirão o querosene na aviação).

Na Rio+20 foram realizados voos da Lufthansa com bioquerosene produzido a partir do reúso de óleo de fritura; da Gol, com bioquerosene produzido por algas convertendo açúcar em óleos; e da Azul, com bioquerosene produzido por leveduras que convertem açúcar de cana-de-açúcar em farneseno.

Há grande gama de matérias-primas e processos de conversão que potencialmente podem ser aproveitados para a produção de bioquerosene de aviação. O importante é que o bioquerosene seja economicamente competitivo, apresente potencial de redução de emissões e tenha outros indicadores socioambientais positivos, tais como não competir com alimentos, nem ameaçar a biodiversidade. Para ter noção das possibilidades, quase todas as matérias-primas agrícolas e resíduos podem se candidatar para a produção de bioquerosenes aeronáuticos sustentáveis.

O Brasil é visto mundialmente como “o país dos biocombustíveis”. A reputação, muito merecida, foi resultado de muito esforço em pesquisa que permitiu a construção de indicadores de sustentabilidade sem paralelo no mundo. Exemplo são os investimentos do Programa Bioen, criado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) para estimular pesquisas e parcerias no campo dos biocombustíveis.

Foi então concebido um consórcio entre Embraer e Boeing, cofinanciado pela Fapesp, para estudar as opções matéria-prima/tecnologia sob os pontos de vista de custo, potencial de redução de GEE e outros indicadores de sustentabilidade. O projeto tem por objetivo identificar as lacunas e potencialidades de cada opção de bioquerosene.

Como parte do processo de debates, está sendo realizado um roadmap, executado em oito workshops em diferentes cidades no país, cobrindo os aspectos relevantes dessas opções, desde a matéria-prima, passando pelas tecnologias de refino, questão logística, sustentabilidade, necessidade de investimentos em pesquisa e desenvolvimento e adoção de políticas públicas para construir a nova indústria no país.

Para o Brasil, a indústria que agora surge representa nova e grande oportunidade. O volume de querosene utilizado no mundo é de cerca de 250 bilhões de litros, 10 vezes o volume de etanol produzido no país. Essa é também uma indústria que nasce diferente do etanol e do biodiesel, pois será parte de um esforço global. O Brasil é, de partida, o país mais credenciado a atender à futura demanda.

Desnecessário dizer que bons empregos e divisas externas são sempre importantes. Além disso, o envolvimento de um órgão oficial de fomento à pesquisa demonstra o compromisso do país com a inovação e com a geração de riqueza a partir do conhecimento.

*Fonte: correio Braziliense, 06-09-2012