CHRISTIAN LOHBAUER

A política externa da presidente Dilma é mais pragmática

Christian_LohbauerEspecialista vê reaproximação com Estados Unidos

Em vez da busca pelo protagonismo internacional, ações pragmáticas focadas no desenvolvimento econômico. Numa comparação com a política externa de Lula, Dilma Rousseff dá sinais de que haverá uma mudança no plano global, segundo o cientista político Christian Lohbauer, do Grupo de Análise de Conjuntura Internacional da USP.

Para ele, o momento é de estreitar relações com os EUA e dar menos atenção à vaga no Conselho de Segurança da ONU.

O Globo – É possível ver diferenças em relação à política internacional do governo Lula?

Lohbauer – É cedo para dizer que a política externa da presidente Dilma será uma ruptura (em relação ao governo Lula), mas há movimentos importantes que mostram uma mudança de postura. Os alinhamentos do governo passado com regimes autoritários não terão o mesmo status neste governo.

Lohbauer – Esse alinhamento tinha por trás o interesse do Brasil em ganhar apoio para ocupar vaga no Conselho da ONU…

Lohbauer – Quais as motivações e bandeiras da política externa do governo Lula? A tal liderança regional, seja lá o que isso significa. Depois, um posicionamento universal de alinhamento não excludente, uma tradição da política externa. E aí vem a parte que deve estar mudando. Uma certa aversão deliberada contra os Estados Unidos, que existia no governo, está perdendo força.

O Globo – Dilma será mais hábil para tratar com países que ferem os direitos humanos, mas com os quais deve manter relações comerciais, caso do Irã?

Lohbauer – A política externa da presidente Dilma é mais pragmática. Ela sabe que o Brasil tem interesses econômicos importantes com o Irã, como no setor de carne bovina e grãos. Mas, acima de tudo, sabe, pela história pessoal dela e tradição da política do nosso país, que a liberdade pelos direitos humanos é fundamental. Foi clara contra a tortura da Sakineh, o que é bom. Ao mesmo tempo, provavelmente, vai ter nos bastidores uma relação cordial com o Irã. É assim que se faz.

O Globo – A visita do presidente dos EUA, Barack Obama, pode ser interpretada como um primeiro passo para estreitar as relações entre os dois países?

Lohbauer – Foi uma visita importante do ponto de vista simbólico. Não há resultado prático a curto prazo, mas o simbolismo é importante, se a gente considerar que as reações e empatias químicas entre Bush e Lula nada geraram.

O Globo – Mais importante que a questão do apoio dos EUA para uma vaga no Conselho da ONU está a abertura de mercado entre os dois países?

Lohbauer – O protagonismo brasileiro em busca desse apoio deve levar em consideração se haverá reforma do conselho. Ninguém sabe. Sem americanos, não vai ter reforma. Quem põe dinheiro ali são os americanos, com 25%. O Brasil coloca 1%, e muitas vezes atrasa. Qual benefício o povo brasileiro vai ter em fazer parte do conselho? O contribuinte está disposto a aumentar sua contribuição? Segundo: a sociedade está disposta a tratar de intervenções, do tipo bombardeio em Belgrado?

O Globo – A relação de Dilma com Lula fará com que ela dê continuidade ao plano de aproximação com a África?

Lohbauer – Creio que o pragmatismo da política externa está voltando à baila, o que significa saber: há interesses do Brasil na África? Sim, em alguns países, como Angola, África do Sul, Argélia, Egito. Mas são interesses comerciais, que têm de ser promovidos.

*Fonte: Jornal O Globo, 03/04/2011